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Motoqueiros do Sorraia na EN2

Chaves - CORUCHE - Faro

10 a 13 de junho de 2021

Motoqueiros do Sorraia:

Quem Somos

Diário da travessia:

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Motoqueiros do Sorraia

Quem Somos?

DIÁRIO DA TRAVESSIA

 

Dia 1 Chaves - Viseu (178 Km)

10 de junho de 2021

 

A direção havia decidido que o próximo passeio dos Motoqueiros do Sorraia seria mais ambicioso: percorrer de Norte a Sul a Estrada Nacional 2, a "Meca" portuguesa dos Motards.

Assim que abriram as vagas - devido à logística, limitadas a 14 motociclos -, estas esgotaram mais rapidamente que os bilhetes para o concerto dos U2 em Coimbra. A afluência fora enorme.

 

Quando a carrinha do Chico Fera chegou ao hotel e ouvimos o dono do hotel dizer: "Vocês vão nisso até Faro?" Só nessa altura nos começámos a aperceber da dimensão do nosso empreendimento. 

 

Iniciámos a nossa aventura no quilómetro zero. Invadimos a rotunda com o marco do quilómetro Zero com as nossas motas e decorámo-la com as cores do nosso concelho. O momento ficou registado com dezenas de fotografias. Tivemos de nos apressar, pois já estavam dezenas de Motards a aguardar ansiosamente a sua vez para tirarem uma fotografia. 

 

Em Chaves, fizemos tantos amigos que quando largámos ferro e iniciámos o nosso  percurso rumo a Sul, reparei que, depois de alguns quilómetros após Chaves, levávamos uma bela comitiva atrás de nós: motas de alta cilindrada, camiões, carros ligeiros, tratores e bicicletas. Pensei cá para mim: "Este pessoal quer vir todo connosco".

Alguns minutos depois, já éramos ultrapassados pela maior parte dos veículos e todos nos acenavam e cumprimentavam. Mas, quando uns ciclistas mais atrevidos nos tentaram ultrapassar, o Abelha, já agastado, meteu uma mudança abaixo, enrolou o punho e do escape saltou uma enorme golfada de fumo que apanhou os ciclistas desprevenidos em cheio, deixando-os para trás e a "estrebuchar". Era só o que faltava, sermos ultrapassados por ciclistas. A mota do abelha ficou conhecida como a "Fumosa" , tal não era o fumo que largava do escape. Eu acho que ele trouxe uma daquelas máquinas de fazer fumo nos concertos no lugar do escape. Se algum ambientalista estivesse a fazer a Nacional 2 numa mota elétrica e passasse pelo Abelha, ligava logo para a GNR e apresentava uma queixa. 

 

Parámos no Vidago Palace mas não pudemos entrar para tirar umas fotografias devido à situação em que nos encontramos. Dali, seguimos para as Pedras Salgadas e bebemos um copo de Água das Pedras diretamente da fonte. Primeiro estranha-se mas depois entranha-se, alguns queixaram-se do ferro da água mas todos beberam um copo. 

 

No Peso da Régua fizemos uma ligeira paragem e apreciámos a paisagem lindíssima. Não tivemos tempo para uma prova de vinhos. 

Parámos em Lamego para almoçar. Os Motoqueiros do Sorraia já estavam esganados, eram duas horas e o sol estava bravo. Naquela hora de almoço, percebi a diferença entre ser um "betinho" da vila e um tipo desenrascado. Todos os meus colegas Motoqueiros do Sorraia têm um porta de chaves com um canivete e atiraram-se à carne como se fossem uns Leões da Rodésia. Tive de apelar à solidariedade dos meus colegas para que me cortassem um bocado de carne, caso contrário, não me teria conseguido desenvencilhar sozinho. 

 

Fizemos os restantes quilómetros após o almoço e chegámos a Viseu por volta das 18:30. Percorremos os 178 Km a uma média de 50 km/h e nas subidas baixámos para os 40 km/h. 

Ao todo somos 12 Motoqueiros, juntamente com o Chico Fera na carrinha de apoio. Contra todas as expectativas, nenhuma mota avariou, deixando o Chico Fera só, ansiando por companhia, uma vez que ele gosta tanto de conversar e o seu vasto repertório nunca acaba.

 

Façam as vossas apostas, das 12 motas, quantas chegarão a Faro?

 

Amanhã teremos 280 km pela frente.

 

Dia 2 Viseu - Montargil (275 Km)

11 de junho de 2021

A Pousada da Juventude de Viseu proporcionou-nos o merecido descanso. A noite foi calma e sentimo-nos revigorados. A noite foi calma para alguns, não para todos. Nunca imaginei que, durante a noite, alguns motoqueiros conseguissem roncar mais alto do que as suas motas. O ronco era tão alto que se parecia com o som de um motor a tirar água de um poço, sendo que o poço está seco, logo, o motor tem de fazer um tremendo esforço. Aqui, para podermos descansar, é preciso ter um sono igual ao do Tutankamon.

 

Estava um lindo dia de sol em Viseu. Após o pequeno-almoço fizemo-nos à estrada mas, após a nossa passagem pelas dezenas de rotundas de Viseu, o sol começou a esconder-se. O fumo que saía do escape das motas (devido ao facto de estarem frias) era tanto que deixámos a cidade envolvida numa nuvem de fumo que se parecia com um intenso nevoeiro.

 

Passámos Tondela (que é quase do tamanho dos Montinhos dos Pegos) Santa Comba Dão e Mortágua. O Chico Fera já andou no deserto do Saara, no deserto de Atacama, Cazaquistão, China e Rússia e nunca se perdeu. Foi em Mortágua, ao percorrer a Estrada Nacional 2 que acabou por se perder. Ele e nós, andámos algum tempo perdidos. É inacreditável, como uma estrada tão famosa e publicitada como esta, não tenha uma única placa a indicar a Estrada Nacional 2 na zona de Mortágua. Acabámos por perguntar a uns ciclistas que nos orientaram e logo retomámos a nossa marcha rumo a sul. Passámos em várias localidades e decidimos parar em Góis para almoçar, junto ao rio Ceira.

 

O Chico Fera, que já tem largos anos de experiência do Dakar, trata-nos de toda a logística, não temos de nos preocupar com nada. Hoje, para o almoço, o Chef Fera presenteou-nos com um frango à Fera, comprado no Minipreço. Bebemos umas Heineken bem frescas para empurrarmos o frango para baixo e para finalizar, comemos uma fatia de melão da zona de Almeirim.

 

Nas horas das refeições são tantas as histórias, que pelo meio há sempre quem conte umas belas mentiras sem que ninguém se aperceba. É preciso um polígrafo para começarmos a saber distinguir as histórias verdadeiras das falsas.

 

Ainda durante o almoço, o Chico Fera lançou um desafio: todos temos de votar na mota mais bonita e na mota mais valente. O Fera votou na mota do Manuel Batista como sendo a mais bonita e na mota do Nan como sendo a mais valente. Nota-se algum sofrimento na DT do Nan, parece um burro em Santorini a levar turistas encosta acima. Até ao momento a DT tem-se portado bastante bem.

 

O dia de hoje foi complicado, tivemos de percorrer centenas de quilómetros e não conseguimos parar em todos os locais que pretendíamos.

 

Já se nota algum desgaste em algumas motas, tornando cada subida num tormento. Algumas já vão chiando, outras perdem peças, tendo havido um retoque numa ou noutra. A mota do Abelha ontem teve problemas, hoje voltou a ter mas continua a não dar "parte fraca", ainda não foi desta que arreou.

 

Após a visita ao marco geodésico em Vila de Rei, finalmente, tivemos a primeira baixa: a DT do Russo estremeceu e deu o último suspiro nos seus braços. Ninguém acreditaria que a mota do Russo seria a primeira a falecer. O Chico Fera esfregou as mãos de contente, pensando que iria, finalmente, ter companhia na carrinha. Felizmente, o Natoco trouxe duas motas, pensando que a Z2 não aguentaria e trouxe uma CRM suplente. Descarregámos a CRM e metemos a DT na carrinha. O Russo seguiu viagem na CRM e o Fera continua só na carrinha com uma enorme vontade de falar e com muitas histórias por contar.

 

Chegámos a Montargil todos sujos, com a cabelo pastoso, o cheiro a gasolina entranhado nas roupas e tão queimados pelo sol que mais parecemos uns lagostins.

 

O nosso alojamento de hoje é um pouco mais austero mas, amanhã, ficaremos num alojamento mais faustoso, com direito a piscina. Já estou a imaginar estes 13 galifões, depois de uma longa jornada a desbravarem caminho, chegarem ao hotel e saltarem para dentro da piscina, a água clara vai ficar escura como a noite.

 

Dia 3 Montargil - Almodôvar (203 Km)

15 de junho de 2021

Tem sido impossível descansar à noite, o ronco dos Motoqueiros está cada vez pior. Em Montargil, o espaço era reduzido para os 12 motoqueiros, cada qual no seu saco de cama. Ora ressonava um, ora ressonava outro, uns em sintonia, outros dessincronizados, nem o melhor maestro conseguiria fazer alguma coisa desta orquestra de roncadores semi-profissionais.

Estes dias devem ter sido uma autêntica bênção para as mulheres destes motoqueiros, finalmente, puderam ter umas belas noites de descanso.

 

Saímos bem cedo de Montargil e, após alguns quilómetros, já estávamos a passar pelo concelho de Coruche. Parámos junto à placa que sinalizava o nosso concelho e foi com bastante orgulho que tirámos uma dezena de fotografias para mais tarde recordarmos.

De seguida, seguimos para Montemor-o-Novo, onde parámos para tomar o pequeno-almoço: uma bifana e um sumo. Eu gosto de bifanas mas há quem meta tanta mostarda que parece que está a comer uma sandes de mostarda com um bocado de bife a temperar.

 

Só ao fim de três dias é que compreendi o significado pelo qual os Motards das motas de alta cilindrada nos cumprimentavam com o pé esticado. Eu pensava que eles ao darem um esticão com o pé era um "chega para lá". Afinal não, eles têm uma maneira diferente de cumprimentar, é a maneira de se distinguirem de todos os outros. Nós quando cumprimentamos outros motards buzinamos, acenamos e esbracejamos. Dali para a frente, passei a cumprimentar os motards como se estivesse a mandar um coice e o cumprimento foi sempre retribuído.

Existe uma hierarquia na Estrada Nacional 2: em primeiro lugar estão as motas de alta cilindrada, seguem-se os veículos ligeiros, de seguida estão as motorizadas e no final os ciclistas que tanta companhia nos têm feito ao longo da Estrada Nacional 2.

 

Parámos no Torrão para nos refrescarmos e, o Chico Fera, que parece um embaixador das Nações Unidas, com toda a sua diplomacia estabeleceu logo contactos. Saímos do Torrão com almoço já marcado para um restaurante em Ferreira do Alentejo.

Quando terminámos de almoçar, já o Nan estava a tratar do jantar e a perguntar a cada um de nós o que queria para o jantar. Estávamos mais cheios que um ecoponto da Ecolezíria e ninguém queria ouvir falar em comida.

 

No dia anterior, a DT do Russo tinha avariado e ele continuava connosco na CRM que o Natoco tinha trazido de reserva. O Lúcio trocou com o Natoco e conduzia a Zundapp Z2 e o Natoco a Zundapp Z3 do Lúcio. Pelos vistos, estão habituados a estas promiscuidades.

Infelizmente, o Natoco teve um furo e o Russo foi fazer companhia ao Chico Fera na carrinha. A Zundapp Z3 foi colocada no reboque. Alguns quilómetros mais à frente, numa curva acentuada, uma cinta defeituosa cedeu e a mota caiu do reboque. O Fera e o Russo tiveram de parar e carregar a mota, que se encontrava virada do avesso na estrada. Uma senhora passou de carro e disse: "Olhem que vocês já andam a perder motas". O Fera, respondeu: "Oh minha senhora, por que é que acha que estamos parados?” 

 

Uma dúzia de quilómetros mais à frente, ouvimos um estrondo: o escape da Zundapp Z2 mandou um rater e a mota não mais trabalhou. Tivemos de carregar mais uma mota para o reboque. O Chico Fera não teve mãos a medir, andou dois dias sozinho mas hoje, a carrinha estava com a lotação esgotada. No reboque seguiam as Zundapps e a DT e na carrinha o Russo e o Lúcio faziam companhia ao Fera que estava radiante e mortinho por contar as últimas novidades.

 

O Abelha continua a surpreender tudo e todos, quando alguns pensavam que a sua Sachs seria uma das primeiras a ir parar ao reboque, ele continua imponente e altivo, como se fosse o Nuno Álvares Pereira montado no seu melhor cavalo a caminho de uma batalha. O único defeito que o Abelha aponta à sua mota tem a  ver com o facto de o banco lhe fazer doer o rabo. Para a próxima, ele que compre um banco mais macio com estofos em pele.

 

Chegámos ao final da tarde a Almodôvar, enquanto uns foram desfrutar da piscina e mandar uns mergulhos, os mecânicos de serviço – Lúcio e Natoco – foram reparar as motas avariadas. 

As poucas pessoas que estavam na piscina fugiram quando viram o desfile de barrigudos vir na sua direção, pensando que aquela gente toda junta na piscina iria mandar litros de água para fora.

Os mecânicos, que fizeram um trabalho incansável e notável, conseguiram ressuscitar a Yamaha DT e a Zundapp Z3. A única mota que não irá chegar a Faro é a Zundapp Z2, isto é, se mais nenhuma der problemas. 

Para a última etapa partimos todos montados nas motas, só o Chico Fera segue sozinho na carrinha e a ouvir os Greatest Hits dos Spandau Ballet.

 

No final do dia, o Zé das Bifanas juntou-se à comitiva e ainda aproveitou para dar umas braçadas na piscina. Infelizmente, por motivos profissionais, ele não pôde vir connosco, teve de ficar a gerir o seu café, que dá cada vez mais trabalho. Devido a uma enorme afluência de clientes, o Zé teve de montar uma esplanada do outro lado da estrada, junto à praça de táxis. Se o dono da BP se descuida, quando for a ver, já o Zé tem uma esplanada montada nas bombas da BP. Quem quiser colocar combustível, se pedir com bons modos, o indivíduo que está sentado na esplanada a comer uma bifana pode bem atestar o carro.

 

No início deste passeio, pela Estrada Nacional 2, tínhamos tanta probabilidade de chegarmos a Faro como o Sporting tinha em ser campeão. Ao longo do percurso, foram várias as pessoas que ficaram admiradas com a nossa aventura, ninguém acreditava que conseguiríamos percorrer a EN2 de Chaves a Faro. Temos superado todas as expectativas. 

 

Amanhã teremos menos de 100 Km para percorrer, a etapa será a mais curta e aguarda-nos um trajeto fácil. Ficou para o fim a prova da montanha na Serra do Caldeirão. Chegados a esta fase, embora um pouco exaustos, o ânimo é elevado e o objetivo já só passa por percorrermos o maior número de quilómetros, de modo a chegarmos a Faro o mais rapidamente possível, abdicando de algumas paragens ao longo do caminho.

 

Doze Motoqueiros iniciaram a aventura em Chaves e para a última etapa continuaremos os doze, mesmo após alguns percalços ao longo do caminho.

 

Dia 4 Almodôvar - Faro (74 Km)

13 de junho de 2021

Deixámos o melhor para o fim. Durante a nossa jornada ficámos em alojamentos mais modestos, desta vez, passámos a noite numa casa de turismo rural, com todas as mordomias e luxos e acabámos por ficar com a ideia de que seria demais para nós.

 

Tomámos o pequeno-almoço bem cedo, por volta das 7 horas. À nossa espera estava uma enorme mesa recheada de comida. Por volta das 7:30 já só restavam as travessas, os pratos e os copos vazios, parecia que tinha passado por ali um furacão. Os motoqueiros são tão solidários que, se alguém não for capaz de comer algo que tenha no prato, há sempre quem se se ofereça logo para comer, como se fizesse parte do "Refood," não vá alguma comida se estragar.

 

Quando ligámos as motas, ocorreu o primeiro incidente: a mota do Paulo César não ligava, a bateria tinha descarregado. Os mecânicos de serviço atuaram rapidamente e, com uns cabos de arranque, ligaram a bateria da mota do Paulo César à bateria da carrinha do Chico Fera. O Paulo César não ganhou para o susto, não havia como disfarçar, a careca transpirada não deixava margens para dúvidas. A bateria ficou carregada e o Paulo César, com receio, nunca mais desligou a mota sempre que efetuámos uma paragem.

 

Após o incidente, deixámos Almodôvar – com muita pena nossa, até houve alguns motoqueiros que prometeram que voltarão com as esposas para passar um fim-de-semana no monte – e rumámos até ao Ameixial. Antes do Ameixial, estava uma placa a indicar uma localidade chamada Monte das Viúvas e houve quem quisesse fazer um desvio.

 

Chegados ao Ameixial, aproveitámos uma paragem para carimbar o passaporte da Estrada Nacional 2 e para bebermos um café. O pessoal já estava ansioso, faltavam menos de 50 km até Faro: pelo meio tínhamos a Serra do Caldeirão; poderíamos ter algum percalço ao longo do caminho; tínhamos de carregar o reboque com as motas em tempo record; e o mais importante, tínhamos de conseguir apanhar o comboio das 14:15 com destino ao Pinhal Novo.

 

Nesta fase, cada paragem era um tormento. Havia quem se benzesse, outros rezavam, alguns faziam festas à mota, de modo a incentivá-las a que, quando dessem à chave, elas trabalhassem. Ninguém queria ficar a pé.

 

Iniciámos a subida da Serra do Caldeirão com as suas 365 curvas. Ora tombávamos para a direita, ora tombávamos para a esquerda. Eu vinha na retaguarda e reparei que estávamos todos em sintonia, cada motoqueiro dominava a sua mota com destreza e até houve quem arriscasse mais e colocasse o joelho para fora durante as curvas, como se estivesse no Moto GP.

 

Parámos no miradouro do Caldeirão para contemplar a paisagem lindíssima e tirarmos umas fotografias. Mais à frente, parámos na Cortelha, mais precisamente na Casa dos Presuntos para um abastecimento. Ainda há pouco tínhamos tomado o pequeno-almoço e já estávamos novamente a comer. Este pessoal tem sempre fome e mesmo os que não tinham fome, ficaram com fome ao verem os outros a comer uma valente sandes de presunto.

 

Entretanto, lá fora, a mota do Paulo César continuava a trabalhar sem que ninguém a estivesse a vigiar. Nenhum lambuças se lembrou de vigiar a mota do Paulo César, nem o próprio Paulo César.

 

A próxima paragem seria em São Brás de Alportel, apenas para obtermos o penúltimo carimbo no passaporte. Faro não nos saía da mente, estava ali tão perto. Arrancámos a todo gás e num ápice chegámos a Faro, as nossas motas nunca tinham acelerado tanto.

 

Em Faro, parámos na rotunda que tem o marco do quilómetro 738. O nosso agente da autoridade, Manuel Baptista, atravessou a mota na rotunda e mandou parar o trânsito para que os motoqueiros pudessem subir para a rotunda com as suas motas. Felizmente, esse momento ficou registado em vídeo: um indivíduo montado numa Macal a parar o trânsito em Faro, algo nunca visto.

 

A alegria foi imensa, os 12 motoqueiros que iniciaram o percurso em Chaves tinham conseguido chegar a Faro, embora com alguns incidentes pelo meio. O pessoal estava efusivo, radiante e em êxtase. Trocámos abraços, demos palmadas nas costas e cumprimentos afetuosos. Por momentos, os motoqueiros machos pareciam uma equipa de futebol feminino a celebrar um título.

 

Depois de carimbarmos o passaporte, tivemos de carregar as motas para o reboque do Chico Fera. Cada qual dava a sua opinião e todos queriam que a sua mota fosse bem presa e com a devida distância da mota do lado, de modo a que não ficasse riscada ou danificada.

 

Almoçámos num restaurante perto da estação e, após ao almoço, embarcámos no comboio rumo ao Pinhal Novo. O Chico Fera, o Manuel Baptista e o Abelha seguiram na carrinha com o reboque e só pararam numa área de serviço para comer um “Rajá” bem fresquinho.

 

Felizmente, não perderam nenhuma mota pelo caminho. No Pinhal Novo trocámos de comboio e saímos em Vendas Novas, onde tínhamos à nossa espera o amigo António Neves e as esposas de uns quantos motoqueiros, que nos levaram até à sede dos Montinhos dos Pegos.

 

A chegada aos Montinhos foi uma deceção, estávamos a pensar que iríamos ter uma receção apoteótica, só que não estava lá ninguém para nos receber. Descarregámos as motas do reboque, despedimo-nos e cada qual seguiu para a sua casa, cansados mas orgulhosos, conscientes de que uma aventura destas, com este grupo heterogéneo, com a camaradagem que houve, companheirismo, boa disposição e com muitas brincadeiras pelo meio, dificilmente se voltará a repetir.

 

O passeio foi um retumbante sucesso, ainda não tínhamos concluído a Estrada Nacional 2 e já estávamos a pensar na próxima aventura. Algumas esposas ligaram para o Nan a perguntar-lhe quando seria o próximo passeio e se da próxima vez não poderia ser mais tempo, umas duas semanas.

 

Qualquer pessoa pode percorrer a Estrada Nacional 2 numa mota de alta cilindrada com todo o conforto e comodidade, agora, fazê-lo de motorizada, nem todos estão dispostos a isso. Ao longo do percurso, conhecemos inúmeras pessoas e muitos deles ficaram perplexos ao saberem que estávamos a percorrer o país de Norte a Sul em motorizada. Para além da aventura, para a qual cada um contribuiu, à sua maneira, para que se tornasse memorável, ao percorrermos a EN2, também realizámos um roteiro gastronómico pelo país.

 

Mal chegámos de comboio ao Porto, fomos logo provar uma francesinha, que não agradou a todos. Em Chaves, o repasto foi uma valente posta mirandesa. Em Ponte de Sor, ao jantar, os comensais devoraram peixe do rio: Carpa e Lúcio. Em Almodôvar, as sopas de tomate com entrecosto frito deliciaram os motoqueiros que repetiram inúmeras vezes até não sobrar nada nas travessas. Já em Faro, as lulinhas fritas estavam deliciosas e de chorar por mais.

 

No final, ficam as memórias e as histórias, conscientes, de que, de ano para ano, as histórias vão sendo ligeiramente alteradas e contadas à maneira de cada um.

 

Esta aventura não teria sido possível sem o apoio logístico do Chico Fera. A sua maneira de ser contagia qualquer pessoa, ele é um autêntico embaixador da boa disposição. Nunca nos faltou nada, sempre que necessitámos de parar, ele lá estava com comida e águas.

 

O nosso muito obrigado à Câmara Municipal de Coruche pelo interesse na nossa “expedição” e pela divulgação nas redes sociais e na internet, criando uma página de propósito para o diário da viagem.

 

Gostaríamos de agradecer ao CSCD Montinhos dos Pegos pelo apoio que nos foi dado, quem percorrer a Estrada Nacional 2 vai encontrar cachecóis dos Montinhos dos Pegos nos mais afamados cafés.

 

E por fim, não temos palavras para expressar o quanto estamos agradecidos à Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Sorraia. Quando souberam da nossa jornada, e que iríamos acampar ao relento na barragem de Montargil, solidarizam-se connosco e colocaram à nossa disposição um alojamento e balneários com água quente. Proporcionaram-nos todas as condições para que pudéssemos repousar e, sem que na altura o soubéssemos, proporcionaram-nos a noite mais divertida da expedição.

Textos: Carlos Asseiceira

Fotografias: Motoqueiros do Sorraia